Taty do Surf !

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Argentino de sangue e brasileiro de coração vira o novo menino de ouro

Cinco anos depois de trocar de nacionalidade, Alejo Muniz conquista vaga para a elite mundial e deixa ‘equipe’ de Kelly Slater para ter mais espaço no surfe


Alejo Muniz Tríplice Coroa 
Alejo Muniz, novo integrante da elite mundial
(Foto: Divulgação/ASP)
Quando Conca foi eleito o melhor jogador do Brasileirão, outro argentino – de sangue, como faz questão de dizer –, alheio ao futebol, mal conseguia relaxar. Após dias de ansiedade no Havaí, torcendo pelo tropeço de alguns adversários, Alejo Muniz confirmou sua vaga na elite do surfe. A comemoração vai começar em Mar del Plata, onde mora boa parte de seus parentes, e só vai parar na catarinense Bombinhas, cenário do primeiro capítulo da história da família Muniz no Brasil. Um merecido descanso para o novo menino de ouro do Circuito Mundial. Naturalizado brasileiro em 2005 por uma motivação profissional, o surfista de 20 anos será um dos cinco representantes do país na temporada 2011.
- Sempre digo: sou argentino de sangue e brasileiro de coração - conta, rindo.
O pai de Alejo, argentino, foi trabalhar em Santa Catarina, onde hoje tem uma escolinha de surfe. Grávida, a mãe, também argentina, ficou em Mar del Plata porque Bombinhas só tinha parteiras. O hospital mais próximo ficava em Balneário Camboriú - a 30km - e, segundo a família, naquela época muitos bebês estavam morrendo na região. Alejo nasceu do lado de lá, logo veio para o Brasil, mas manteve-se argentino.
Se meu irmão não estivesse lá na praia me dando força, não sei se conseguiria."
Alejo, sobre a vaga
Aos 15 anos, o surfista começou a ver que tornar-se brasileiro poderia ser o melhor caminho a seguir. Tinha se classificado para o ISA Games - principal competição por equipes -, mas não pôde competir pela equipe verde-amarela. Decidiu então trocar de nacionalidade.
- O problema é que era preciso morar dez anos no Brasil, e a carteira de identidade só sairia cinco anos depois. Fui com meu pai para Brasília. Demos sorte e conseguimos em tempo recorde. Em três dias eu estava com identidade, CPF e passaporte nas mãos. Até publicaram uma foto minha no site do governo. Isaura. Nunca vou esquecer o nome da funcionária que nos ajudou - lembra-se.
A mesma sorte não teve um de seus três irmãos. Santiago, de 18 anos, há três temporadas tenta virar brasileiro. Ainda mora em Bombinhas, com os pais, mas em 2011 vai se mudar para o Guarujá (SP), onde Alejo mora, sozinho.
Alejo Muniz WQS de Haleiwa 
Alejo Muniz  durante o WQS de Haleiwa, primeira joia da Tríplice Coroa  (Foto: ASP)
Santiago, aliás, foi peça-chave na conquista do irmão mais velho. Acompanhou a saga durante as duas primeiras etapas da Tríplice Coroa Havaiana. Em Sunset, Alejo chegou às quartas de final e ficou muito perto da vaga. Depois, foi necessário esperar a eliminação de alguns surfistas tops no Pipeline Masters. Em 2011, apenas os 32 primeiros do ranking unificado disputarão o Mundial - antes eram 45. Além de Alejo, o Brasil terá Adriano de Souza, o Mineirinho, Jadson André, Heitor Alves e Raoni Monteiro.
- Meu técnico, Paulo Kid, e meu irmão foram fundamentais. Se o Santiago não estivesse lá na praia, me dando força, não sei se iria conseguir.
Alejo Muniz Tríplice Coroa 
Com o troféu de melhor calouro no Havaí
(Foto: Divulgação/ASP)
Nos dias de espera e tensão, Alejo ligava todos os dias para casa, mas pedia para o pai não tocar no assunto. Preferia conversar sobre amenidades. Queria saber, por exemplo, como o caçula, Danilo, de 7 anos, estava na escola.

A notícia da classificação chegou apenas quando estava a caminho do Brasil, na conexão entre Los Angeles e Miami. Ele retornava com um troféu na bagagem: o de melhor estreante na Tríplice Coroa de 2009.
- Saí do avião e fiquei esperando meu técnico, que vinha atrás. Ele estava demorando muito. Quando me viu, abriu os braços e disse: "Você está dentro". Acho que ele ficou tão surpreso que não soube como me dar a notícia.
Adeus à 'equipe' de Slater para buscar mais espaço
Surf Alejo Muniz 
Alejo deixa de ser 'companheiro' de Slater
(Foto: Ivo Gonzalez/Divulgação Nike)
Alejo Muniz ainda não teve tempo para planejar a temporada de 2011. A maior das estratégias, porém, foi traçada antes mesmo do embarque para o Havaí. Trocou a empresa de surf wear que o patrocinava - a mesma de Kelly Slater - e aceitou a proposta para ser garoto-propaganda de uma gigante no mundo de materiais esportivos que, pela primeira vez, investe em surfistas brasileiros.
- Uma das coisas que eu queria era ter mais espaço na equipe. A outra tinha o Slater, o Dane Reynolds... - disse.

Surf Alejo Muniz  
Brasileiro torce para que americano continue
competindo(Foto: Ivo Gonzalez/Divulgação Nike)
Apesar de terem feito parte da mesma equipe, Alejo e Kelly Slater só se encontraram uma vez, em um jantar da empresa. Na primeira e única oportunidade de disputar uma etapa do Mundial - em Imbituba-2008, como convidado -, não teve chance de enfrentar o americano. Agora, torce para que o decacampeão mundial, de 38 anos, espere pelo menos mais alguns campeonatos antes de se aposentar.
- Quero competir contra ele em pelo menos um campeonato. Se ele me destruir na bateria, não tem problema - brinca.

Felipe França troca piscina pelo mar e tem aula de surfe com Picuruta

Campeão mundial em Dubai, nadador curte as férias em Santos e cai no mar para aprender a pegar ondas com um especialista na modalidade


Felipe França faz aulas de surfe com Picuruta Salazar 
Felipe França e Picuruta Salazar: pupilo e mestre após aula (Foto: Adilson Barros / GLOBOESPORTE.COM)
Ele foi bem. Nota 8"
Picuruta Salazar
Após virar celebridade com as três medalhas conquistadas na Copa do Mundo de piscina curta, disputada em Dubai, nos Emirados Árabes, neste mês, o nadador brasileiro Felipe França está relaxando em Santos. Ele aproveitou o descanso para se dedicar a uma outra paixão, que também tem tudo a ver com água: o surfe. Nesta quinta-feira, foi até o Emissário Submarino de Santos, na praia do José Menino, e tomou aulas com Picuruta Salazar, veterano e lendário surfista brasileiro, que tem uma escola da modalidade no local.
Nas piscinas, Felipe fica bem à vontade. Em Dubai, conquistou o ouro nos 50m peito, com 25s95, batendo o recorde de campeonato da prova e sem dar chances ao recordista mundial, o sul-africano Cameron Van Der Burgh. Ele ainda conquistou dois bronzes: nos 100m peito, e no revezamento 4x100m medley. Já no mar, ele demorou para pegar o jeito.
Felipe chegou à praia dizendo que já havia surfado, que adora pegar ondas.
- Sempre adorei o mar. Desde pequeno. Vinha para a praia e passava cinco, seis horas brincando na água. Também já surfei, mas com um grande campeão como o Salazar vai ser especial.
A princípio, Picuruta ficou meio desconfiado e perguntou:
- Você diz que sabe surfar? Vamos ver. Agora, nadar você sabe, né? É a primeira coisa que eu sempre pergunto aos alunos. Surfista que não sabe nadar não existe - brincou o professor.
Após uma breve aula teórica na areia, onde o mestre ensinou o jeito certo de entrar na onda e de se posicionar na prancha, os dois caíram na água. O pai do nadador campeão mundial, Davi França, no quebra-mar, registrava tudo.
- Ele gosta de água. Acho que vai se dar bem. Vamos ver.
Felipe França faz aulas de surfe com Picuruta Salazar 
os poucos, Felipe foi pegando jeito
(Foto: Adilson Barros / GLOBOESPORTE.COM)
No início, Felipe teve dificuldades. Não conseguia sequer ficar de pé na prancha. Picuruta, ao seu lado, pedia calma. Dizia que o nadador estava muito afoito para ficar logo de pé. Depois de algumas tentativas - e de uma troca de prancha - Felipe conseguiu descer algumas ondas pequenas. A sessão durou cerca de 40 minutos. O nadador curtiu cada segundo.
- Foi muito bom. É uma alegria estar aqui aprendendo com um surfista tão vitorioso como o Salazar, estar em contato com a natureza e com esse elemento sagrado que é a água. Eu sempre gostei de surfe. É  uma experiência excelente - disse.
O professor aprovou.
- Olha, para quem não tem muita experiência, ele foi bem. Nota 8.
Planos
Após o descanso, Felipe França começa a se preparar para 2011. Sua principal meta é a conquista do índice olímpico para ter o direito de representar a natação brasileira nas Olimpíadas de Londres, de 2012.
- Vou atacar os Jogos Panamericanos e o Mundial de Xangai (China), que vai ser uma seletiva olímpica. Quero fazer o máximo, até desmaiar na piscina se precisar, mas vou conquistar o índice.

RETROSPECTIVA: um ano que foi da tristeza profunda à alegria extrema

Surfe teve emoções distintas: o deca de Kelly Slater, a morte de Andy Irons, seguida pelo nascimento de seu filho, e a classificação de Alejo para 2011


Andy Irons Teahupoo 
Irons comemorando a vitória no Taiti (Foto: ASP)
Das lágrimas de tristeza às de alegria em apenas quatro dias. Se a morte do havaiano tricampeonato mundial Andy Irons pegou os surfistas de surpresa, como uma onda gigante quebrando sobre a cabeça, o décimo caneco conquistado pelo americano Kelly Slater os fez esquecer, temporariamente, a dor. Depois, mais alegria. Agora por um choro novo, o do filho de Andy: Andy Axel Irons, nascido no dia 8 de dezembro.
Entre os brasileiros, a dupla alegria e tristeza também andou de mãos dadas. Jadson André iniciou a caminhada na elite com passos firmes. Alejo Muniz dará os seus em 2011. É o nosso novo menino de ouro. Entre as meninas, Bruna Schmitz dá adeus ao Circuito Mundial, e Jacqueline Silva retorna, depois de um ano fora.

Andy Irons é campeão no  Mundial de Teahupoo 
Havaiano Andy Irons nas ondas de Teahupoo, no Taiti (Foto: ASP)
Aos 32 anos de idade e depois de três títulos mundiais, Andy Irons só queria conquistar mais uma vitória em etapas. Conseguiu, em setembro, e justamente na onda mais temida do mundo: Teahupoo, no Taiti. No fim de outubro, doente, desistiu de competir em Porto Rico. Só queria voltar para casa. Não conseguiu. No dia 2 de novembro, o havaiano foi encontrado morto em um quarto de hotel em Dallas, onde faria a segunda conexão rumo à ilha de Kauai. Trinta e seis dias depois - em 8 de dezembro, data de início da janela de espera do Pipeline Masters - nasceu Andy Axel Irons, filho dele e de Lyndie.
Andy tinha contado à família e aos amigos que estava com febre de dengue. Foi analisado por um médico, que o recomendou a ir a um hospital. O surfista, porém, decidiu voltar para o Havaí. As causas da morte apenas serão conhecidas depois da divulgação dos exames toxicológicos.
Kelly Slater decacampeão mundial Porto Rico 
Slater, decacampeão mundial (Foto: Reuters)
Foram três dias de luto profundo. No quarto, Kelly Slater fez o que Andy Irons, seu maior adversário, esperaria dele. Competiu e venceu. Em 6 de novembro, o americano tornou-se decacampeão mundial. E foi em um dia inteiro de atuações de gala em Porto Rico.
Com notas 9,00 e 9,87 nas quartas, contra o brasileiro Adriano de Souza, o Mineirinho, Slater levou, por antecipação, o Circuito Mundial. Único que poderia superá-lo no ranking, o sul-africano Jordy Smith, ao ver que não tinha mais chance, quis acompanhar de perto. Entrou na água dez minutos antes do início de sua bateria. Viu o americano pegar mais uma onda e estendeu a mão, em reverência. Um rápido cumprimento. Um pequeno gesto para o maior da história. Mas Slater não estava satisfeito. Na final, contra o australiano Bede Durbidge, nota 8,77 e, para fechar, claro, um 10,00. A 45ª vitória na carreira.
Tyler Larronde onda gigante Jaws 
Tyler Larronde em Jaws (Foto: Surfersvillage)
Fim de ano é sinônimo de boas notícias para Tyler Larronde. O havaiano de 16 anos, pela segunda temporada seguida, surpreendeu ao pegar uma onda gigante em Jaws. Em dezembro, encarou uma enorme ondulação no famoso pico de surfe na ilha de Maui e, com a sessão, vai se inscrever no prêmio XXL, o "Oscar" do surfe em ondas grandes. Tyler é filho de Michel Larronde, um dos principais surfistas franceses da década de 80. O pai, que nasceu no País Basco, mas foi criado na França, mudou-se para Maui, no Havaí, onde Tyler nasceu, em 1994.
Surfe Bruna Schmitz  
Bruna Schmitz sai da elite (Foto: Divulgação)
Em sua segunda temporada na elite mundial, Bruna Schmitz teve dificuldades para enfrentar as melhores surfistas do mundo. Buscou no aconchego de casa – nas poucas vezes que foi a Curitiba – e no carinho dos fãs motivação para tentar se manter no Circuito Mundial. Depois da etapa de Sydney, em que parou na repescagem, Bruninha voltou para o hotel onde estava hospedada e escreveu, em inglês e em português, sobre sua decepção.
- Supertriste. Perdi o campeonato ontem, mas tudo bem. Eu sempre perco – escreveu.
A paranaense terminou o ano na 21ª posição do ranking unificado e deu adeus ao Circuito Mundial. No fim da temporada, escreveu:

- Decidi que não vou mais me abalar com resultados ruins, pois o meu objetivo é evoluir no surfe e competir melhor.

Surfe Jadson André Mundial de Imbituba 
Jadson André em Imbituba (Foto:  ASP)
Na pequena e pacata Imbituba, no fim de abril, um menino que sonhava jogar no Maracanã quando criança escreveu seu nome na galeria de campeões de etapas do Circuito Mundial. Estreante na elite, Jadson André transformou a Praia da Vila em uma grande arena, e saiu dela tão aclamado como um astro do futebol. Derrotou Kelly Slater na final. A última vitória de um brasileiro na elite mundial tinha no ano passado, com Adriano de Souza, o Mineirinho, nas ondas de Sopelana, no País Basco. Naquela época, Jadson ainda fazia parte da divisão de acesso. A entrada na elite veio logo em seguida, ainda aos 19 anos.

Nota da redação: Em 2011, Imbituba sairá do calendário do Circuito Mundial. O Rio de Janeiro, que recebeu a etapa brasileira até 2001, voltará a ser a sede.
 
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É o número de títulos mundiais de Kelly Slater. O americano está com 38 anos de idade, mas parece ter disposição e, claro, talento, para aumentar o recorde É a quantidade de surfistas que disputarão a elite mundial em 2011. O número foi reduzido. Antigamente eram 44 ou 45 surfistas. É o número de vezes que a brasileira Maya Gabeira foi eleita a melhor surfista de ondas grandes. A brasileira é soberana há quatro temporadas.
ondas Gigantes Irlanda Surfe 
Onda gigante na Irlanda? Sim. Um novo e surpreendende pico de surfe foi descoberto, a 2km da costa, e batizado de Prowlers (Foto: Reprodução / surfline.com)

"Meu coração foi destruído agora ao saber sobre a morte do meu grande amigo Andy Irons. Obrigado por me ensinar coisas que ninguém conseguiria, como: envergar uma raquete de tênis, me dar filmes de surfe horríveis para ver quando eu era criança. hahaha. Sei que um dia vamos nos encontrar de novo e espero entrar com combustível extra (risos). Vou sentir sua falta, meu amigo" Clay Marzo, ao saber da morte de Andy Irons.
Surf Alejo Muniz 
Alejo, a aposta para 2011(Foto: Ivo Gonzalez/Nike)
Um argentino de sangue e brasileiro de coração. Em 2011, o Brasil terá um novato de ouro no Circuito Mundial: Alejo Muniz. Nascido em Mar Del Plata e criado em Bombinhas, em Santa Catarina, o surfista de 20 anos será um dos integrantes do quinteto verde-amarelo na elite. Adriano de Souza, o Mineirinho, e Jadson André conseguiram se manter. Heitor Alves e Raoni Monteiro retornam.
Eleito melhor calouro da Tríplice Coroa, Alejo voltou ao North Shore havaiano em 2010 e, lá, conquistou um lugar na elite mundial. Em Sunset, chegou às quartas de final e ficou muito perto da vaga. Depois, foi necessário esperar a eliminação de alguns surfistas no Pipe Masters.
O talento do brasileiro despertou o interesse dos patrocinadores. Trocou a empresa de surf wear que o apoiava - a mesma de Kelly Slater - e aceitou a proposta para ser garoto-propaganda de uma gigante no mundo de materiais esportivos que, pela primeira vez, investe em surfistas brasileiros.